O desamparo aprendido.
Há uma frase que escuto com frequência no consultório e que sempre me chama a atenção. Ela aparece em histórias muito diferentes, dita por pessoas diferentes, mas quase sempre carrega a mesma sensação: “não adianta”.
Não adianta conversar com ele. Não adianta procurar outro emprego. Não adianta tentar de novo. Não adianta colocar um limite porque nada vai mudar. Não adianta cuidar de mim porque eu sempre volto ao mesmo lugar. Não adianta começar porque, no fundo, eu já sei como isso termina.
À primeira vista, essas frases podem parecer pessimismo. Em alguns casos, parecem falta de iniciativa, acomodação ou até uma forma conveniente de justificar a própria imobilidade. Mas acredito que exista algo muito mais complexo acontecendo quando alguém passa tempo demais vivendo experiências nas quais aquilo que faz parece não produzir qualquer diferença. Depois de tentar muitas vezes e fracassar, desistir pode deixar de ser uma decisão e se transformar em uma aprendizagem.
Em algum momento, o sujeito não conclui apenas que aquela tentativa não funcionou. Ele aprende algo muito mais abrangente: não importa o que eu faça. Essa diferença é fundamental. Uma coisa é reconhecer que determinada situação está fora do nosso controle. Existem perdas que não podemos evitar, pessoas que não podemos modificar, relações que não podemos salvar sozinhos, acontecimentos diante dos quais nossa capacidade de interferência é realmente pequena. Aceitar esses limites faz parte de uma relação saudável com a realidade. Outra coisa, completamente diferente, é ter vivido tantas experiências de impotência que começamos a enxergar como inevitável aquilo que talvez já pudesse ser diferente.
É nesse ponto que o passado deixa de ser apenas uma lembrança e passa a funcionar como previsão.
Uma das formas mais silenciosas de aprisionamento psíquico acontece justamente aí. As circunstâncias mudam, os recursos aumentam, a pessoa amadurece, conquista autonomia, aprende, estabelece novas relações, ocupa outros lugares no mundo, mas continua respondendo à vida a partir de uma conclusão construída quando ainda não possuía nenhuma dessas possibilidades.
A criança que não podia enfrentar o pai torna-se um adulto incapaz de dizer não ao chefe. A mulher que passou anos tentando ser ouvida em uma relação na qual sua palavra nunca teve valor entra em outra relação já convencida de que conversar não adianta. Alguém que fracassou repetidamente em determinada área deixa de distinguir “eu não consegui” de “eu não consigo”. Aos poucos, aquilo que aconteceu algumas vezes começa a adquirir a aparência de uma verdade sobre si mesmo.
É justamente isso que torna o desamparo aprendido tão difícil de perceber: ele não se apresenta como uma aprendizagem. Apresenta-se como realidade.
Quem vive dessa maneira raramente pensa: “aprendi que sou impotente”. Pensa simplesmente: “sou impotente”; ou: “houve uma época em que minhas escolhas não produziam efeito”. Pensa: “minhas escolhas não produzem efeito”. A história desaparece da equação e deixa em seu lugar uma certeza.
Na década de 1960, os psicólogos Martin Seligman e Steven Maier começaram a estudar experimentalmente um fenômeno que mais tarde ficaria conhecido como Learned Helplessness, ou desamparo aprendido. A descoberta que surgiria daqueles experimentos era ao mesmo tempo simples e perturbadora: quando um organismo é submetido repetidamente a acontecimentos aversivos sobre os quais não possui controle, pode passar a se comportar como se suas ações fossem incapazes de modificar aquilo que lhe acontece. Décadas mais tarde, os próprios autores revisariam parte dessa explicação original, mas uma questão permaneceria central: a experiência de controle, ou da ausência dele, modifica profundamente a maneira como reagimos às adversidades.
Mais perturbador ainda é o que pode acontecer depois. Mesmo quando as condições mudam e uma possibilidade de saída aparece, podemos não procurá-la. É essa parte que me interessa. Porque passamos uma parte considerável da vida tentando escapar de situações que já terminaram sem perceber que continuamos obedecendo às conclusões que construímos dentro delas.
Em 1978, Lyn Abramson, Martin Seligman e John Teasdale ampliaram a discussão ao tentar compreender por que algumas experiências de impotência permanecem circunscritas enquanto outras parecem contaminar diferentes áreas da vida. Não é a mesma coisa pensar “não consegui fazer isso” e concluir “eu nunca consigo fazer nada”. Também não é a mesma coisa pensar “essa relação não funcionou” e transformar essa experiência em “ninguém vai me amar”. Entre o acontecimento e a conclusão existe uma interpretação. E essa interpretação pode transformar uma experiência específica em uma identidade.
A TCC trabalha justamente nesse território. Não se trata de convencer alguém de que tudo depende dela, porque isso seria tão distorcido quanto acreditar que nada depende. Trata-se de recuperar a capacidade de discriminar. O que de fato está fora do meu controle? O que esteve fora do meu controle no passado, mas hoje não está mais? O que depende parcialmente de mim? E, principalmente, onde deixei de agir porque já antecipei que minha ação seria inútil?
A Psicanálise chega ao desamparo por outro caminho. Para Freud, o desamparo não é inicialmente algo que aprendemos. Ele faz parte da própria condição humana. Nascemos radicalmente dependentes de um outro para sobreviver. No início da vida, não conseguimos sozinhos regular nossas necessidades, afastar aquilo que nos ameaça ou obter aquilo de que precisamos. Essa experiência primordial de dependência deixa marcas. Em Inibição, Sintoma e Angustia, Freud relaciona a angústia justamente à possibilidade de reencontrarmos uma situação de desamparo anteriormente experimentada.
É por isso que certas experiências adultas nos atingem com uma intensidade que parece desproporcional ao acontecimento presente. Uma demissão pode ser mais do que uma demissão. Uma rejeição pode ser mais do que alguém que não nos escolheu. Uma separação pode ser vivida não apenas como o fim de uma relação, mas como a confirmação de uma antiga sensação de abandono, insuficiência ou impossibilidade de sobreviver sem aquele outro.
É nesse encontro entre passado e presente que Psicanálise e TCC, embora partam de pressupostos diferentes, podem produzir uma conversa interessante. A primeira nos ajuda a compreender por que determinadas situações carregam um peso tão particular para aquele sujeito. A segunda permite observar como as conclusões construídas a partir dessas experiências continuam organizando pensamentos, escolhas e comportamentos no presente.
E é aqui que aparece uma questão mais delicada: a vitimização.
Existem pessoas que foram, efetivamente, vítimas. De abandono, violência, abuso, negligência, humilhação, relações profundamente assimétricas ou circunstâncias sobre as quais realmente não tinham qualquer poder. Reconhecer isso não é estimular a vitimização. É reconhecer a realidade. O problema começa quando uma condição que pertenceu a determinado momento da história passa a ocupar o lugar de identidade.
Ter sido vítima descreve algo que aconteceu comigo. Ser permanentemente vítima passa a definir quem acredito ser diante da vida.
Quando isso acontece, há um risco silencioso: toda responsabilidade começa a ser localizada fora. O outro determina como me sinto, o passado determina quem sou, minha família explica todas as minhas escolhas, meu chefe impede meu crescimento, meus relacionamentos justificam minha infelicidade. E quanto menos participação reconheço na construção da minha vida presente, menos possibilidades encontro para modificá-la.
Há uma contradição difícil aí. A posição de vítima pode proteger o sujeito da culpa, mas também pode privá-lo de potência. Se tudo o que acontece comigo depende exclusivamente do outro, então também preciso esperar que o outro mude para que alguma coisa em mim possa mudar.
Essa é uma das consequências mais cruéis do desamparo aprendido: aquilo que um dia nos protegeu da dor de tentar inutilmente pode, mais tarde, nos impedir de perceber que agora tentar produziria outro resultado.
Por isso, sair do desamparo não significa assumir a fantasia de que controlamos tudo. Não controlamos. Pessoas vão embora. Corpos adoecem. Relações terminam. Projetos fracassam. O mundo frequentemente se mostra indiferente aos nossos desejos.
Autonomia não é onipotência.
Amadurecer é justamente aprender a diferença entre aquilo diante do qual sou realmente impotente e aquilo diante do qual apenas continuo me sentindo impotente. Essa diferença parece pequena, mas muda quase tudo. Porque há situações das quais conseguimos sair muito antes de conseguirmos deixar de nos sentir presos a elas.
Uma pergunta importante não é apenas por que eu me tornei assim, quem me feriu ou em que momento aprendi que não adiantava tentar. Tudo isso importa. Nossa história importa. Mas chega um momento em que precisamos acrescentar outra pergunta, talvez mais desconfortável:
isso ainda é verdade?
Porque compreender onde aprendemos a desistir pode explicar uma parte importante de quem somos. Descobrir que hoje podemos fazer diferente é o que começa a mudar quem seremos.