O simples é o oposto do fácil.

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O simples é o oposto do fácil.
Photo by Jeremy Bishop / Unsplash

Durante muito tempo acreditei que amadurecer significava acumular. Mais conhecimento, mais experiências, mais técnicas, mais ferramentas, mais respostas. Como se a inteligência fosse medida pela quantidade de conceitos que alguém consegue carregar ou pela complexidade com que é capaz de explicar a realidade. Hoje acredito exatamente no contrário. A maturidade não parece seguir a lógica do acúmulo. Ela se parece muito mais com um lento processo de destilação. Crescer, no sentido mais profundo da palavra, é descobrir o que pode ser retirado sem que a essência se perca. 

Essa percepção aparece de forma curiosamente consistente em quase todas as áreas da vida. A simplicidade raramente está no início do caminho. Ela costuma aparecer apenas quando o excesso já cumpriu sua função.

Acredito que exista um equívoco muito característico do nosso tempo. Confundimos profundidade com complexidade. Passamos a acreditar que uma vida inteligente precisa ser cheia de estratégias, métodos, aplicativos, planejamentos, sistemas e teorias. Quanto mais elaborada parece uma resposta, maior tende a ser o valor que lhe atribuímos. No entanto, basta observar atentamente as pessoas que desenvolveram alguma forma de sabedoria para perceber um movimento curioso: elas quase nunca acrescentam complexidade aos problemas. Ao contrário. Retiram aquilo que impede a realidade de aparecer.

Na clínica, esse fenômeno se repete diariamente. O sofrimento dificilmente chega em sua forma original. Ele costuma vir protegido por narrativas extremamente sofisticadas. O paciente organiza explicações, contextualiza acontecimentos, busca coerências, constrói interpretações e produz justificativas intelectualmente impecáveis. Tudo isso possui uma função psíquica importante. As racionalizações amortecem o impacto emocional da realidade. Elas criam uma distância segura entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos admitir sobre nós mesmos. Não há nada de patológico nisso. Trata-se de um recurso humano profundamente compreensível.

Os momentos mais transformadores de um processo terapêutico acontecem quando acrescentamos uma nova interpretação à história. Quando conseguimos retirar algumas camadas. Depois de muito tempo descrevendo conflitos familiares, alguém finalmente reconhece que passou a vida inteira tentando conquistar um amor que jamais seria oferecido. Depois de incontáveis explicações sobre um relacionamento, resta apenas o reconhecimento de que ele terminou muito antes da separação oficial. Depois de anos atribuindo o sofrimento às circunstâncias, surge uma frase pequena, quase desconfortavelmente simples: “estou com medo”. Curiosamente, essas frases possuem muito mais potência do que páginas inteiras de explicações.

Acredito que o simples seja profundamente exigente justamente porque elimina as possibilidades de negociação que criamos com nós mesmos. A complexidade permite infinitas interpretações. Ela oferece espaços para a dúvida, para a racionalização, para os adiamentos e para as justificativas. O simples faz exatamente o contrário. Ele reduz um problema àquilo que realmente importa. E, quando isso acontece, sobra muito menos espaço para protegermos nossa autoimagem.

É por isso que o simples costuma ser confundido com o fácil, quando na verdade representa o seu oposto.

O fácil produz alívio raso e imediato. Ele nos permite adiar uma conversa, evitar um conflito, encontrar mais uma justificativa plausível, esperar o momento ideal, acreditar que amanhã estaremos emocionalmente mais preparados do que hoje. O simples não oferece esse conforto. Ele pede que reconheçamos a realidade antes que ela se torne conveniente. Exige responsabilidade antes de oferecer tranquilidade. Demanda constância antes de produzir resultados. Carece renúncia antes de proporcionar liberdade. O fácil preserva o presente. O simples constrói o futuro.

Essa diferença ajuda a compreender uma fantasia muito presente na cultura contemporânea. Vivemos procurando resultados como se eles existissem de maneira independente do caminho que os produz. Desejamos relações sólidas sem aceitar que elas são sustentadas por centenas de conversas difíceis que jamais aparecerão nas fotografias felizes. Admiramos pessoas disciplinadas sem perceber que aquilo que chamamos de disciplina nada mais é do que a repetição cotidiana de comportamentos pouco interessantes, quase sempre invisíveis e frequentemente cansativos. Invejamos serenidade, competência, estabilidade emocional ou prosperidade financeira como se fossem características adquiridas em algum momento específico da vida, quando, na verdade, representam estados permanentemente construídos por pequenas escolhas que raramente despertam qualquer entusiasmo.

Existe uma frase que me acompanha há algum tempo: o resultado é apenas um efeito colateral do processo. Gosto dela porque desloca completamente o foco daquilo que costumamos valorizar: o resultado é visível, mas o processo, quase nunca. O resultado pode despertar admiração. O processo dificilmente desperta. O problema é que ninguém pode escolher apenas um deles. Ao desejar determinado resultado, escolhemos também a rotina que inevitavelmente o acompanha. Quem ama apenas a conquista, mas despreza o caminho que a produz, acaba vivendo uma relação permanente de frustração com a própria realidade.

Essa lógica também aparece em uma característica muito curiosa das pessoas que continuam crescendo ao longo da vida. Elas não tratam o aprendizado como um projeto temporário, mas como parte da própria identidade. Não estudam apenas quando precisam resolver um problema específico. Tornam-se pessoas interessadas em compreender melhor o mundo, os outros e a si mesmas. Aos poucos, deixam de acumular conhecimento para começar a organizá-lo. Depois, passam a selecionar. Finalmente, aprendem a descartar. A inteligência deixa de ser medida pela quantidade de informações armazenadas e passa a ser percebida pela clareza com que conseguem distinguir o essencial do acessório.

Os estoicos compreendiam isso de maneira admirável. Ao desenvolverem o exercício da premeditatio malorum, não estavam cultivando pessimismo, mas simplificando o pensamento. Ao imaginar deliberadamente os cenários mais difíceis, retiravam do futuro uma parcela importante da ansiedade produzida pela imaginação. A Terapia Cognitivo-Comportamental realiza movimento semelhante quando convida o paciente a abandonar interpretações automáticas e aproximar-se das evidências disponíveis. Em ambos os casos, o objetivo nunca foi tornar o pensamento mais elaborado. Sempre foi torná-lo mais claro.

Acredito que a clareza seja uma das formas mais sofisticadas de inteligência. Não porque ignore a complexidade da vida, mas porque já a atravessou. Existe uma enorme diferença entre simplificar um problema por desconhecimento e simplificá-lo depois de compreendê-lo profundamente. A primeira atitude empobrece a realidade. A segunda a destila. Infelizmente, costumamos confundir as duas. Chamamos de simplista quem, muitas vezes, apenas conseguiu chegar ao núcleo da questão.

Essa é uma das mudanças mais silenciosas da maturidade. Aos poucos, deixamos de admirar respostas brilhantes e começamos a valorizar respostas honestas. Diminuímos a necessidade de convencer, de impressionar e de parecer sofisticados. Descobrimos que algumas decisões importantes cabem em poucas palavras, que muitos conflitos desaparecem quando abandonamos a necessidade de ter razão e que boa parte da ansiedade contemporânea nasce da tentativa de controlar variáveis que jamais estiveram sob nosso domínio.

Acredito que a vida se torne progressivamente melhor não quando aprendemos mais, mas quando deixamos de precisar de tantas coisas para viver bem. O amadurecimento não consiste em acumular respostas para todas as perguntas, mas em descobrir quais perguntas deixaram de merecer nossa energia. A simplicidade não representa ausência de profundidade. Ela representa o momento em que a profundidade finalmente encontrou sua forma mais elegante.

E é justamente por isso que continuo acreditando que o simples é o oposto do fácil. Não porque exija menos esforço, mas porque exige muito mais coragem.

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