Para ser bom em algo, é preciso um ato de autonomia.

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Para ser bom em algo, é preciso um ato de autonomia.
Photo by Imitat / Unsplash

 

O cérebro não quer o seu potencial.

Existe uma verdade pouco confortável sobre o desempenho humano: o cérebro não tem compromisso com o nosso potencial.

Ele não foi desenvolvido para nos transformar em grandes atletas, escritores, empresários, artistas ou profissionais extraordinários. Sua prioridade é mais elementar: conforto, reprodução e sobrevivência. A excelência não é o destino natural do organismo. É uma espécie de insubordinação.

Essa ideia me atravessou enquanto assistia a uma entrevista do psicólogo de performance Dr. Gio Valiante. Ao explicar por que tantas pessoas vivem abaixo das próprias capacidades, ele retoma a hipótese do “governador central”, segundo a qual existem mecanismos cerebrais que regulam o esforço e reduzem nossa disposição para avançar quando percebem risco, desgaste ou desconforto. É como se houvesse um sistema interno permanentemente preocupado em nos proteger de nós mesmos. Antes de atingirmos o limite real, o cérebro frequentemente produz a experiência subjetiva do limite.

Quem pratica esportes de endurance conhece bem essa negociação. Durante uma prova ou treino longo, chega um momento em que o corpo ainda consegue continuar, mas a mente começa a apresentar argumentos bastante convincentes para parar: hoje não é meu dia, o ritmo está excessivo, é melhor reduzir pois você já fez o suficiente. Algumas dessas mensagens são necessárias e precisam ser respeitadas. Outras são apenas tentativas sofisticadas de retorno ao conforto. Distinguir proteção de desistência é uma das tarefas mais difíceis para quem decide ultrapassar o lugar em que normalmente pararia.

Fora do esporte, o mesmo mecanismo aparece de formas menos evidentes. Está naquela tarefa importante que adiamos, na conversa difícil que evitamos, na ideia que nunca mostramos, no projeto que planejamos durante anos sem começar. Raramente admitimos que estamos com medo. Preferimos explicações mais elegantes: ainda não é o momento, falta preparação, preciso pensar melhor, o cenário não está favorável. Criamos uma justificativa racional para uma decisão que muitas vezes já foi tomada pelo desconforto. E fazemos isso muito bem. A racionalização é uma defesa eficiente justamente porque preserva uma imagem aceitável de nós mesmos. Não preciso reconhecer que estou evitando uma experiência se conseguir transformar minha evitação em prudência. Não estou paralisado; estou avaliando. Não estou com medo; estou esperando a oportunidade certa. Pode parecer a mesma coisa, mas psiquicamente não é.

Existe uma ideia recorrente de que precisamos mudar primeiro o pensamento para, depois, mudar o comportamento. Ela parece lógica e tem apelo porque promete uma ação sem conflito: quando eu estiver preparado, farei; quando me sentir seguro, decidirei; quando a confiança chegar, vou me expor. O problema é que essas condições internas não costumam chegar espontaneamente. Esperamos ter confiança para agir, quando a confiança frequentemente é construída porque agimos. Esperamos a motivação aparecer, embora muitas vezes seja o movimento que produz motivação. Queremos clareza antes de decidir, mas certas decisões só se tornam claras depois que começamos a vivê-las.

Albert Bandura, um dos grandes nomes da Psicologia Cognitiva, compreendeu que o comportamento não é apenas resultado do que pensamos e sentimos. Ele também modifica nossos pensamentos e sentimentos. Quanto mais repetimos uma ação, maior a probabilidade de realizá-la novamente. Aos poucos, a experiência produz evidências sobre quem somos. Escrever faz com que alguém se reconheça como escritor. Treinar reorganiza a identidade como atleta. Sustentar uma decisão difícil ensina ao sujeito que ele consegue atravessar conflitos sem se desfazer. 

Não precisamos estar completamente transformados para agir. Em grande parte, somos transformados por aquilo que fazemos de forma repetida.

Essa inversão retira a mudança do território sedutor das intenções e a devolve ao campo concreto da conduta. Existe uma distância enorme entre desejar uma vida e praticar os comportamentos capazes de torná-la possível. O desejo pode ser verdadeiro e, ainda assim, permanecer estéril. A intenção nos permite preservar uma imagem positiva de nós mesmos. A ação perturba a organização atual da identidade. E toda perturbação tem um preço.

Nossos hábitos não são apenas rotinas funcionais. Com frequência, eles são formas de regulação emocional. O telefone evita o silêncio. A comida amortece a angústia. O excesso de trabalho nos mantém longe de conflitos internos. A procrastinação protege da possibilidade do fracasso e, em algumas situações, também da possibilidade de sucesso. Aquilo que chamamos de mau hábito pode exercer uma função importante na economia psíquica. Retirá-lo significa perder uma defesa antes que outra forma de sustentação tenha sido construída. Por isso, abandonar um comportamento repetitivo costuma ser muito mais difícil do que qualquer discurso sobre disciplina sugere. Não basta perguntar qual hábito está prejudicando meu desempenho. Eu ampliaria a pergunta: de que experiência esse hábito está me protegendo? O que surgiria se eu não pegasse o telefone? Qual pensamento encontraria espaço se eu permanecesse em silêncio? Que risco apareceria caso eu finalmente concluísse o projeto? Todo comportamento que se repete entrega alguma recompensa, ainda que seja apenas o alívio momentâneo de não lidar com algo.

A autonomia começa quando conseguimos observar esse mecanismo sem obedecê-lo de imediato. Não acredito em uma mente completamente livre de condicionamentos. Isso seria mais fantasia do que liberdade. A liberdade psicológica possível está naquele breve intervalo entre o impulso e a ação. Às vezes, é um intervalo minúsculo, o que chamamos na Terapia Cognitiva “pensamento automático”. Ainda assim, existe ali uma possibilidade de autoria. Posso estar inseguro e agir. Posso sentir medo e continuar. Posso não acreditar plenamente em mim e cumprir o que decidi fazer. Isso muda tudo porque interrompe a exigência de coerência emocional. Fomos ensinados a esperar que o sentimento certo autorize o comportamento certo. A vida real é menos organizada. Há decisões importantes tomadas com medo. Há conversas necessárias conduzidas com a voz trêmula. Há trabalhos excelentes produzidos em dias ruins. A confiança não precisa estar inteira para que a ação comece.

Quando penso em liberdade psicológica, não penso em eliminar emoções indesejáveis nem em controlar todos os pensamentos. Penso na capacidade de reconhecer aquilo que se instalou em nós sem escolha consciente. Quais expectativas foram internalizadas? Quais medos ainda pertencem ao presente? Quais são apenas repetições de experiências anteriores? Quanto daquilo que chamamos de personalidade é um repertório antigo, praticado tantas vezes que passou a parecer identidade?

Pensar sobre o próprio pensamento, aquilo que chamamos de metacognição, permite examinar essas construções. O problema é que esse exame só produz mudança quando alcança o comportamento. Caso contrário, a autoconsciência vira uma contemplação sofisticada da própria paralisia. Na clínica, encontramos pessoas capazes de explicar brilhantemente por que fazem o que fazem. Conhecem a origem do padrão, identificam os gatilhos, reconhecem os mecanismos de defesa e dominam o vocabulário psicológico. Continuam, no entanto, fazendo as mesmas coisas. Compreender um padrão não significa ter deixado de repeti-lo.

Há ainda outro elemento que subestimamos: o ambiente. Gostamos de imaginar o desempenho como resultado de atributos individuais, como disciplina, inteligência e força de vontade. Essa leitura é sedutora porque nos coloca no controle. Mas o cérebro interage continuamente com o contexto, captando permissões, ameaças, recompensas e limites que nem sempre chegam à consciência. A cognição é situada. Pensamos dentro de ambientes. Agimos dentro deles também. Uma pessoa pode aspirar à grandeza e passar anos em um lugar que pune qualquer tentativa de crescimento. Famílias, empresas, grupos sociais e relações possuem seus próprios mecanismos de conservação. Quando alguém muda, o sistema inteiro precisa se reorganizar. Nem todo ambiente está disposto a pagar esse preço. Alguns grupos oferecem afeto enquanto a pessoa permanece previsível, pertencente, semelhante. Quando ela começa a avançar, o apoio dá lugar à ironia, à crítica ou a uma preocupação que se apresenta como proteção. “Você precisa mesmo disso?” “Não está exagerando?” “Você não era assim.” A última frase é especialmente reveladora. Você não era assim significa, muitas vezes, que sua transformação desorganizou o lugar que ocupava na vida de alguém.

Pertencer é uma necessidade humana profunda. Durante grande parte da nossa história evolutiva, ser rejeitado pelo grupo representava um perigo concreto. Ainda hoje, o cérebro pode interpretar a desaprovação social como ameaça. Realizar o próprio potencial, portanto, exige mais do que tolerar o esforço. Em alguns momentos, será necessário suportar o desconforto de deixar de caber. Esse é um dos custos menos discutidos da autonomia. Tornar-se autor da própria vida pode frustrar pessoas que estavam emocionalmente acomodadas à nossa versão anterior. O sujeito que muda precisa lidar com a culpa de não continuar sendo aquilo que esperavam dele. Crescer pode significar perder uma forma antiga de pertencimento antes de construir outra.

O ambiente também modela nossa relação com o erro. Contextos excessivamente punitivos não produzem necessariamente excelência. Produzem, com frequência, ocultação, ansiedade e aversão ao risco. Se cada falha ameaça a identidade, a posição profissional ou o vínculo, a pessoa aprende a não experimentar. Ela passa a escolher somente tarefas nas quais já sabe que apresentará um bom desempenho. Aos olhos dos outros, parece competente. Internamente, parou de evoluir. Um ambiente de desenvolvimento não elimina o rigor. Há cobrança, responsabilidade, desafio e atenção aos detalhes. O que muda é o destino dado ao fracasso. O erro não é ignorado nem celebrado. É transformado em informação. Quando uma falha significa “eu não sou capaz”, ela atinge a identidade. Quando significa “essa estratégia não funcionou”, ainda existe um caminho possível. Parece uma diferença pequena na linguagem, mas seus efeitos sobre a confiança são enormes.

Confiança, aliás, não é apenas uma sensação genérica de valor pessoal. Isso está mais próximo da autoestima. Na psicologia de Bandura, o conceito fundamental para o desempenho é o de autoeficácia: a confiança operacional de que conseguimos executar determinada ação em determinadas condições. Ela não nasce do nada. É construída a partir das experiências que acumulamos, da interpretação que damos aos resultados, do feedback que recebemos, das comparações que fazemos e da maneira como o corpo reage diante de cada tarefa.

O cérebro, contudo, não registra essas experiências de modo neutro. A dor do fracasso costuma deixar uma marca mais intensa do que a satisfação provocada pelo acerto. Uma crítica permanece por anos enquanto dezenas de elogios se perdem. Basta observar um atleta depois de uma prova: mesmo quando quase tudo funcionou, é comum que ele queira falar primeiro sobre o momento em que falhou. Fazemos isso fora do esporte o tempo todo. Construímos uma memória desigual da própria competência. Arquivamos os fracassos em alta resolução e guardamos os acertos como imagens desfocadas. Depois, usamos esse arquivo para prever o futuro.

Recuperar a confiança não acontece por meio de uma grande declaração motivacional. Confiança precisa de evidências. E as evidências mais confiáveis são produzidas por experiências concretas de domínio, geralmente pequenas. Um quilômetro de cada vez. Uma página escrita. Uma conversa que finalmente ocorreu. Uma decisão mantida apesar da dúvida. O cérebro aprende que pode avançar quando presencia nosso avanço. Existe algo pouco glamouroso nisso. E é justamente essa parte que costuma desaparecer das histórias de alta performance.

Gostamos do momento extraordinário, da vitória, do reconhecimento, da execução que parece transcender qualquer esforço. O trabalho que sustenta essas cenas é menos atraente. São dias comuns. Repetições. Ajustes quase invisíveis. Treinos ruins. Textos descartados. Decisões que ninguém vê. Aquilo que chamamos de talento costuma ter sido protegido durante muito tempo na banalidade.

Dr. Valiante diferencia a motivação orientada para a maestria daquela organizada pelo ego. Na primeira, existe envolvimento com o próprio ofício, prazer em compreender, corrigir, aprofundar e fazer melhor. Na segunda, a atividade se transforma principalmente em veículo para dinheiro, status, reconhecimento ou superioridade. Não existe nada errado em desejar resultados. O risco aparece quando o resultado externo se torna a única razão para continuar. Quem depende exclusivamente do olhar do outro entrega ao outro o poder de interromper sua vocação.

Proteger uma vocação exige reapaixonar-se por ela várias vezes. Nenhum vínculo importante permanece intenso o tempo todo, e nossa relação com o trabalho não é diferente. Haverá entusiasmo. Haverá tédio. Em certos dias, estaremos inteiramente presentes. Em outros, faremos o necessário sem qualquer inspiração. Faz parte.

O estado de fluxo, no qual perdemos a percepção do tempo e tarefas complexas parecem acontecer com naturalidade, não aparece somente em momentos épicos. Pode surgir quando prestamos atenção à aparente banalidade do trabalho. No detalhe. Na repetição bem executada. Na intimidade que se desenvolve entre alguém e aquilo que faz todos os dias. Presença também é comportamento. É uma prática de retorno. A mente se dispersa e nós retornamos. O desconforto aparece e permanecemos mais um pouco. O resultado demora e continuamos trabalhando. Cada retorno reduz um pouco o domínio do automático.

Realizar o próprio potencial não significa tratar o cérebro como inimigo. Seus mecanismos de proteção são necessários. O problema começa quando permitimos que eles decidam sozinhos a direção da nossa vida. Sobreviver exige evitar alguns riscos. Viver com autoria exige escolher quais riscos merecem ser enfrentados. Acredito que o verdadeiro baixo desempenho não seja produzir pouco, ganhar pouco ou avançar lentamente. É deixar que o medo, o hábito, o ambiente e a necessidade de aprovação escolham continuamente em nosso lugar.

A grandeza não começa quando o medo desaparece. Isso é fantasia. Ela começa quando reconhecemos que uma parte de nós quer recuar, voltar ao conhecido, preservar a versão de sempre e mesmo assim, damos o próximo passo.

O cérebro está programado para sobreviver. Mas acredito que uma vida não pode ser medida apenas por aquilo que conseguimos preservar. Ela também precisa carregar as marcas daquilo que tivemos coragem de inaugurar.

Para ser bom em algo, é preciso um ato de autonomia!!

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