Vítimas da perfeição.
O começo do ano é interessante. Não pelo calendário em si, mas pelo efeito simbólico que ele produz. De repente, tudo pode recomeçar, como se a virada do mês autorizasse uma versão mais organizada, mais produtiva, mais correta de nós mesmos. O ano começa e, quase sem perceber, muita gente assina um acordo silencioso com a própria exigência: agora vai. Agora eu faço direito. Agora eu faço perfeito.
A perfeição entra como promessa de segurança, como se existisse uma forma de existir sem ruído, sem falha, sem risco. Uma versão de si capaz de atravessar o mundo sem ser atravessada por ele. O problema é que, quando a perfeição deixa de ser referência e passa a ser condição, algo muda de lugar: o que poderia orientar o caminho começa a estreitá-lo. O desejo cede espaço ao controle.
Eu reli recentemente um discurso do Roger Federer para uma turma de formandos. Não pelo tom inspirador, mas pela honestidade. Quando ele diz que o “sem esforço” é um mito, ele desmonta uma fantasia muito contemporânea: a de que o verdadeiro talento se manifesta sem fricção, como se fosse sempre leve. O perfeccionista sofre especialmente com essa ilusão porque vive comparando o próprio bastidor com o palco dos outros. Ele olha o resultado alheio e conclui que o seu processo, irregular e cansativo, é prova de insuficiência.
O curioso é que o perfeccionista também trabalha muito. Treina, revisa, se dedica, insiste. Por fora, pode parecer disciplinado e comprometido. A diferença não está na quantidade de esforço, mas na lógica que o sustenta. Quando o esforço nasce do desejo, ele expande, produz movimento e abre repertório. Quando nasce do medo, ele enrijece, estreita o campo do possível e, no limite, vira exaustão.
Há o perfeccionismo que paralisa antes mesmo de começar. O sujeito evita o risco do erro e abandona a tarefa quando surgem os primeiros obstáculos. Não por preguiça, mas por proteção. Falhar, aqui, não é apenas um resultado ruim; é uma ameaça à imagem, ao valor, ao lugar simbólico. E há o perfeccionismo que até faz, mas sob um rigor tão exagerado que a execução vira um labirinto: nada termina, nada fecha, nada parece suficiente. Em ambos os casos, a vida fica suspensa. Ou porque não se começa, ou porque nunca se conclui. A promessa era realização e o efeito é adiamento.
Quando Federer diz que, no tênis, tudo é “apenas um ponto”, ele descreve uma estrutura psíquica rara em quem sofre de perfeccionismo. Para o perfeccionista, um ponto perdido nunca é só um ponto. Ele vira diagnóstico. Vira sentença. Não é “errei”; é “eu sou um erro”. A falha deixa de ser evento e passa a ser identidade.
A terapia cognitivo comportamental nomeia bem esse funcionamento. Pensamento dicotômico, supergeneralização, filtro negativo, autoavaliação dependente de desempenho. Em muitos casos, uma crença central de desvalor organiza o conjunto: se eu não for excelente, eu não valho. Mas, para além dos termos técnicos, o que aparece é uma dificuldade profunda de sustentar margem. Tudo precisa ser absoluto porque o meio termo é vivido como ameaça. Ou é perfeito, ou é fracasso, e o fracasso, aqui, não invalida apenas o que foi feito; ameaça invalidar quem eu sou.
É nesse ponto que o chamado perfeccionismo clínico ganha relevância. Não se trata de gostar de fazer bem feito. Trata-se de depender disso para se sentir minimamente inteiro. A busca por padrões elevados persiste mesmo quando o custo é alto demais: ansiedade, procrastinação, exaustão, isolamento, perda de prazer. A pessoa sabe que sofre, mas não consegue soltar, porque soltar não parece liberdade; parece perigo.
Na clínica, isso costuma aparecer como um sistema de reforços muito bem organizado. O mundo elogia o alto padrão. A mente recompensa com alívio cada vez que controla um pouco mais. Esse alívio é breve, mas suficiente para manter o ciclo. Aos poucos, a pessoa passa a confundir controle com segurança, e segurança com identidade. A perfeição vira um lugar onde se tenta morar.
Na psicanálise, eu escuto o perfeccionismo como uma recusa da falta. Uma tentativa de apagar a incompletude, de desmentir o limite e evitar a experiência de vulnerabilidade. Quase sempre há um superego duro demais em cena: um juiz interno que pressiona, cobra, vigia. Em muitas histórias, esse juiz nasce cedo, em contextos onde o reconhecimento vinha condicionado ao desempenho, onde errar custava caro demais, onde descansar parecia fraqueza.
Nessas configurações, a perfeição não é luxo. É defesa. Ela protege da vergonha, da sensação de exposição, da fantasia de rejeição. Mas cobra um preço alto: empobrece a espontaneidade, a criatividade, o prazer de tentar sem garantias. A vida passa a ser vivida sob avaliação constante e tudo vira teste.
Talvez por isso a metáfora da evolução seja tão útil aqui. A natureza não aposta em perfeições absolutas. Ela aposta no suficientemente bom, no flexível e adaptável. Quando algo se torna excelente demais em um único eixo, costuma se tornar frágil em outros. Um pouco de imperfeição não é falha do sistema; é condição de sobrevivência. O que sustenta a vida não é impecabilidade, mas capacidade de ajuste depois do erro.
É também nesse ponto que a teoria do antifrágil, proposta por Nassim Taleb, ajuda a ampliar a leitura clínica do perfeccionismo. Diferente do que é apenas resistente, o antifrágil não só suporta o erro, o estresse e a instabilidade, ele cresce a partir deles. Sistemas antifrágeis se beneficiam do impacto, aprendem com o choque, reorganizam-se depois da falha. O perfeccionismo, ao contrário, busca eliminar o risco, e justamente por isso se torna frágil: qualquer desvio ameaça o todo. A tentativa de controle absoluto impede o aprendizado que só o erro oferece. Em vez de se fortalecer com a experiência, o sujeito se quebra ao menor abalo. A saúde psíquica, nesse sentido, não está em evitar a queda, mas em poder atravessá-la sem colapsar.
Isso recoloca a questão do começo do ano. Porque o ano novo costuma reinstalar ideais. E ideais, quando viram exigência, não inspiram; oprimem. Há uma diferença importante entre ter um ideal e ser governado por ele. Quando o ideal orienta, ele abre caminho. Quando coloniza, ele estreita a existência.
E, já que estamos falando de ano novo, eu me permito um parêntese sobre resoluções. Existe um jeito simples, e por isso mesmo pouco usado, de aumentar a chance de cumprir objetivos: substituir decisões por regras. Decisões exigem força de vontade no calor do momento. Regras encurtam o caminho de execução. Quando tomamos decisões, tendemos a trabalhar de trás para a frente: escolhemos a meta e buscamos meios para alcançá-la. Se quero entrar em forma, decido ir à academia; se quero economizar, decido guardar parte do salário. O problema é que esse modelo depende de escolhas repetidas, todos os dias, e as escolhas acumuladas não facilitam a consistência; elas desgastam. A fadiga decisória se instala, e as desculpas convenientes ganham força.
A regra, ao contrário, reduz negociação interna. Se o objetivo é beber menos refrigerante, uma regra como “só bebo no almoço de sexta” ou “não bebo refrigerante” tira o assunto do terreno do improviso. As pessoas costumam questionar decisões, mas tendem a respeitar regras pessoais, como se a regra fosse uma característica de identidade e não um capricho momentâneo. A vida inteira nos ensinam a seguir regras, mas quase ninguém nos ensina a criar regras a nosso favor. E, quando bem formuladas, elas não são uma prisão; são um modo de proteger nossos objetivos das nossas oscilações.
Talvez, então, este ano não precise ser o ano da versão perfeita. Talvez possa ser o ano da versão possível. Não no sentido de desistência, mas de humanidade. Substituir rigidez por flexibilidade. Controle por discernimento. Autocrítica por responsabilidade. Na linguagem da TCC, trocar o “eu preciso” absoluto por uma preferência comprometida, mas tolerante. Na linguagem da psicanálise, suportar a falta sem transformá-la em vergonha, reconhecendo que o desejo nasce justamente do que não fecha.
“É apenas um ponto”, como diz Federer, no fundo, não é só uma estratégia mental. É uma ética. A ética de jogar cada ponto com intensidade e, ainda assim, não se destruir quando ele termina. Talvez seja isso que caiba para o ano que começa ( ou que, para muitos, só começa depois do carnaval ): fazer o que importa com presença, sem transformar cada erro em veredito. A vida não pede perfeição. Ela pede continuidade.
E, para muita gente, continuar já seria uma enorme vitória.