O erro de querer as coisas erradas.

O erro de querer as coisas erradas.
Photo by mari lezhava / Unsplash

Há algo que aprendi a observar com atenção ao longo dos anos, tanto na clínica quanto na minha própria trajetória: o momento mais delicado da vida de alguém nem sempre é a derrota. Frequentemente é a vitória. Coisas boas acontecem e depois do entusiasmo inicial, instala-se um silêncio difícil de nomear. Não é tristeza exatamente, tampouco frustração. É uma espécie de desalinhamento entre o que se esperava sentir e o que de fato se sente. Como se a conquista tivesse prometido uma reorganização interna que simplesmente não aconteceu.

Roald Amundsen, explorador holandês disse, depois da conquista do polo sul verdadeiro, no início dos anos 1900: “nada, exceto uma batalha perdida, pode ser tão melancólico quanto uma batalha vencida”. Essa observação carrega uma verdade psíquica profunda. Durante o percurso, nossa energia se estrutura em torno de um horizonte futuro. O desejo se organiza no “quando”: quando eu conseguir, quando eu provar, quando eu chegar lá. O futuro funciona como promessa de integração, como se o evento que ainda não aconteceu fosse capaz de resolver aquilo que sentimos como insuficiente no presente. No entanto, quando a conquista finalmente ocorre, o que se revela é que o desejo não se encerra no objeto. Ele apenas se desloca.

É nesse ponto que a psicologia descreve o que convencionamos chamar de esteira hedônica: nossa tendência a nos adaptarmos rapidamente às conquistas e retornarmos ao nosso nível habitual de bem-estar. O extraordinário se torna normal, o novo se transforma em padrão, e aquilo que antes era motivo de êxtase passa a ser apenas o pano de fundo da vida cotidiana. O problema não é a adaptação em si. Ela é um mecanismo evolutivo eficiente, que impede que fiquemos eternamente presos a picos emocionais. O problema é quando construímos toda a arquitetura da nossa vida acreditando que o próximo marco será finalmente suficiente.

Gosto de pensar na figura de Ebenezer Scrooge, personagem principal da história Um Conto de Natal, de Charles Dickens, como uma metáfora sofisticada desse erro. Scrooge não era apenas avarento; ele era obediente ao placar social. Ele internalizou profundamente a lógica hierárquica que mede valor por dinheiro, posição e poder. Jogou conforme as regras, acumulou vitórias e, no entanto, quando lhe foi permitido ver o futuro - sua própria morte recebida com alívio - percebeu que havia vencido a competição errada. Sua tragédia não foi a falta de sucesso; foi a qualidade do que escolheu desejar.

Essa é uma ideia que me atravessa cada vez mais: a qualidade do que buscamos determina a qualidade da vida que teremos. Entretanto, raramente questionamos a origem do nosso desejo. Na clínica, percebo com frequência a estrutura do que chamo de “feliz quando”. A pessoa acredita que será feliz quando atingir determinado patamar, que pode ser financeiro, profissional, relacional. A felicidade é sempre projetada para depois, como se o presente fosse apenas uma sala de espera. O que raramente se percebe é que, no instante em que o “quando” se realiza, ele se transforma em novo normal. A régua sobe quase automaticamente, impulsionada por comparação social, expectativas internalizadas e crenças de desempenho contínuo.

É aqui que a lente da Terapia Cognitivo-Comportamental se mostra extremamente útil. Quando examino a esteira hedônica sob esse prisma, não vejo apenas um fenômeno afetivo; vejo regras internas rígidas, crenças centrais e padrões de comparação que sustentam a corrida. Pergunto com frequência: qual é a regra invisível que está organizando sua vida? “É preciso estar sempre crescendo”? “Nunca pode estagnar”? “Ser suficiente não é suficiente”? Essas formulações funcionam como motores silenciosos. Também investigo que emoção a pessoa espera resolver com a próxima conquista: insegurança, medo de irrelevância, sensação de inadequação? Muitas metas não são apenas objetivos externos; são tentativas sofisticadas de regulação emocional.

Outra questão que considero central é o custo invisível da busca. Que vínculos estão sendo sacrificados? Que experiências estão sendo adiadas? Que partes da identidade estão sendo comprimidas em nome da performance? Ao mesmo tempo, pergunto se o objetivo perseguido está alinhado com valores pessoais ou se é apenas uma resposta à comparação constante com os outros. A comparação social recalibra a percepção de suficiência de maneira quase implacável. Antes de possuir algo, comparo-me com quem não tem; depois de possuir, comparo-me com quem tem mais. A régua nunca permanece estável.

A psicanálise amplia a compreensão ao lembrar que o desejo humano é estruturalmente deslocado. O objeto nunca é simplesmente o objeto. O carro não é apenas um carro; a relação não é apenas uma relação. Eles carregam significações mais profundas: reconhecimento, pertencimento, validação simbólica. E há ainda o imperativo contemporâneo do supereu, que não mais proíbe, mas exige desempenho constante. Não se trata de evitar o erro; trata-se de nunca ser suficiente. A vitória, nesse contexto, não encerra a falta, ela a revela.

Frequentemente observo também que a repetição da corrida não é um acidente. A pessoa muda de cargo, de cidade ou de relacionamento, mas mantém a mesma lógica interna. Há um gozo sutil na própria tensão da busca, na identidade construída em torno da superação permanente. Sair da esteira pode gerar angústia porque implica abandonar um modo de existir que, embora exaustivo, oferece uma narrativa clara de valor pessoal.

Tudo isso me leva à convicção de que sabedoria não é simplesmente saber como conseguir o que se quer. É saber o que vale a pena querer.

Essa distinção é mais radical do que parece. Ela exige a capacidade de dizer não a objetivos que alimentam apenas comparação e performance, e dizer sim a valores que ampliam a vida, como vínculos, presença, coerência interna, experiências que não dependem de aplauso.

Não se trata de renunciar à ambição ou de romantizar a mediocridade. Trata-se de questionar se a direção do movimento está alinhada com aquilo que realmente sustenta uma vida significativa. A esteira hedônica continuará existindo; somos organismos adaptativos e nos habituaremos ao brilho das conquistas. Mas podemos escolher não estruturar toda a nossa identidade em torno de marcos que inevitavelmente perderão intensidade emocional.

Acredito que a maturidade seja exatamente isso: reconhecer que a batalha vencida pode ser melancólica quando escolhemos lutar guerras que não eram verdadeiramente nossas. E talvez liberdade seja perceber, antes que seja tarde demais, que a verdadeira medida da vida não está no placar que sobe, mas na qualidade das relações que permanecem e na coerência entre o que fazemos e o que, de fato, valorizamos.

No fundo, quase sempre sabemos. Sabemos quando estamos correndo por medo. Sabemos quando estamos obedecendo a um placar que não escolhemos. Sabemos quando a próxima conquista não trará aquilo que prometemos a nós mesmos que ela traria. A questão não é ignorância. É coragem de interromper o automático.

É exatamente aí que começa a verdadeira transformação: não na próxima vitória, mas na revisão do que decidimos chamar de vitória. 

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