1/2 segundo.

1/2 segundo.
Photo by John Cameron / Unsplash

 

Ainda estava escuro quando saímos. Há uma espécie de expectativa sem objeto claro, uma tensão silenciosa que não se explica. Não é exatamente sobre ver animais. É outra coisa. Algo mais próximo do que, na psicanálise, chamamos de sujeito desejante. Não o sujeito que quer algo específico, mas aquele que se sustenta na própria falta, na abertura, naquilo que ainda não se sabe.

Jeson é o nosso game driver para o safari. O dia em Pilanesberg começa às 5AM e vamos dirigindo pela savana em busca de encontrar os animais. Este é o jogo: se vamos encontrar ou não. Mas, aos poucos, fica claro que o jogo não é exatamente esse. Não se trata apenas de ver. Trata-se de esperar, de sustentar o não saber, de permanecer disponível para o que pode ou não acontecer.

O ranger recebe uma mensagem pelo rádio, manobra o jeep rapidamente e volta em alta velocidade pelas estradas de terra. Há algo na sua condução que denuncia que é especial, mas ele não diz nada. Talvez para não gerar expectativa.

De repente, ele freia bruscamente. Uma manada de impalas cruza a frente do veículo em disparada. Olho para frente e, em um lance de meio segundo, uma cheetah atravessa o campo de visão perseguindo um impala do bando e se embrenham no mato.

Não sabemos se ela teve êxito na caçada. Não é possível ver entre os arbustos.
Mas é ali que algo se revela. Naquele intervalo mínimo de tempo, entendo o significado do nome “game safari”. Um jogo onde podemos ver os animais em ação ou não, onde o encontro não é garantido, onde a experiência não se organiza para nós. Um jogo em que, na maior parte das vezes, a casa ganha.

Em toda a área do parque, com seus 55.000 hectares, existem apenas duas cheetahs. E, ainda assim, por meio segundo, estivemos diante de uma delas em pleno movimento. Um acontecimento que não se sustenta o suficiente para ser compreendido, mas que se impõe com uma intensidade difícil de descrever.

Há algo profundamente desconcertante nessa experiência. Não apenas pela raridade do encontro, mas pela forma como ele acontece. Não há preparação, não há construção narrativa, não há tempo para organizar o que se vê. O acontecimento irrompe e desaparece antes que possamos simbolizá-lo. E, ainda assim, ele se fixa. De alguma forma, aquele meio segundo passa a ocupar todo o espaço na minha mente ao longo do dia.

É nesse ponto que a experiência do tempo começa a se deslocar.

Estamos acostumados a pensar o tempo como uma sequência linear, mensurável, organizada em horas, minutos e segundos. Mas essa medida, embora útil, parece insuficiente para dar conta do que efetivamente vivemos. Em Pilanesberg, o dia se densifica.

Acordar às 4 da manhã, sair para o safari, retornar ao lodge, tomar café, conversar longamente sobre o que aconteceu, ou sobre o que achamos que aconteceu, descansar, sair novamente no final da tarde para outro game drive e encerrar o dia com um jantar que se prolonga em mais conversas; tudo isso não parece caber dentro de um único dia. Não pela quantidade de atividades, mas pela qualidade da experiência. A sensação é que o dia tem 48 horas.

Há uma expansão que não é cronológica, mas subjetiva. E isso tem menos a ver com o que fazemos e mais com a forma como somos atravessados pelo que acontece.

Naquele meio segundo, não houve tempo para antecipação, nem para interpretação. Houve apenas encontro. Um encontro que não se deixa capturar completamente, que não oferece fechamento, que não permite a construção imediata de sentido. E, justamente por isso, ele permanece aberto. Continua operando. Continua sendo elaborado e vivido, mesmo depois de terminado.

Na clínica, muitas vezes encontramos o inverso. Narrativas sobre os dias que passam rapidamente, preenchidos por uma sucessão de tarefas e estímulos, mas que deixam pouco registro. Há uma espécie de continuidade sem inscrição, um fazer constante que não necessariamente se transforma em experiência. Na linguagem da TCC, poderíamos pensar em um predomínio de funcionamento automático, com baixa presença atencional. Um sujeito que atravessa o dia sem que algo efetivamente se escreva.

Vivemos, mas nem sempre experienciamos.

Pilanesberg introduz uma outra lógica. Ali, o tempo parece se organizar a partir daquilo que nos afeta, e não daquilo que simplesmente acontece. Um dia pode conter poucos eventos e, ainda assim, ser profundamente vivido. E um único instante, se suficientemente intenso, pode reverberar por horas, talvez dias, como por exemplo, um elefante bebendo água na piscina do hotel.

O que nos afeta não é, necessariamente, o que é maior, mais raro ou mais espetacular. Muitas vezes, é justamente aquilo que escapa à previsibilidade, que rompe a continuidade do que esperávamos encontrar. A inquietação não se organiza pelo evento em si, mas pela forma como ele desencontra algo em nós que já estava, de alguma maneira, aberto, sensível, à espera. Há uma dimensão que não é apenas externa, mas profundamente interna. Algo do mundo toca algo em nós e, nesse ponto de contato, a experiência se produz. Por isso, duas pessoas podem viver a mesma cena e saírem com registros completamente distintos. Não é o acontecimento que determina a intensidade, mas a relação singular que cada sujeito estabelece com ele. Aquilo que nos afeta nos atravessa, desorganiza momentaneamente nossas referências, suspende nossas leituras automáticas e exige elaboração psíquica. Este é justamente o trabalho, essa tentativa de dar forma ao que nos tocou, que transforma um instante qualquer em algo que permanece.

Na manhã seguinte, enquanto rodamos lentamente pela savana, vemos ao longe uma figura sobre uma pedra. É a mesma cheetah. Desta vez, imóvel, observando. A cena se sustenta. Há tempo para olhar, para reconhecer, para acompanhar. Ela desce da pedra e caminha em nossa direção, cruzando com elegância na frente do jeep. Tudo é mais lento, mais contínuo, mais compreensível. A intensidade do momento é ainda maior. E, ainda assim, algo permanece menos marcante do que aquele instante anterior, abrupto e incompleto.

O psiquismo não se organiza apenas a partir do que se mostra, mas sobretudo a partir do que escapa. Do que não se resolve, do que não se conclui, do que não se deixa fechar. Há algo no incompleto que insiste, o que não teve desfecho continua acontecendo.

Quando falamos do sujeito desejante, falamos exatamente disso. De um sujeito que não se organiza pela satisfação plena, mas pela falta que o move. Pelo que não se completa. Pelo que escapa à captura.

É por isso que meio segundo possa conter mais tempo do que um dia inteiro. Não porque ele dure mais, mas porque ele não termina.

E aquilo que não termina, de alguma forma, continua sendo vivido.

 

 

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